Ministério da Cultura

 Homenagem promovida pela Fundação Saramago a Jorge de Sena 

10-07-2008 

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Saúdo-vos, agradeço-vos e dou-vos os parabéns por terem vindo.

Permitam-me que saúde especialmente
José Saramago,
Eduardo Lourenço,
António Mega Ferreira,
Vítor Aguiar e Silva,
Jorge Fazenda Lourenço,
Jorge Vaz de Carvalho.

Envio uma saudação à distância para Mécia de Sena, outra para Pilar del Rio aqui presente.

A obra de Sena é uma celebração da língua e cultura portuguesas, apenas possível pelo distanciamento crítico que o seu exílio veio acentuar.

É fundamental respeitar e admirar o esforço desenvolvido pela sua viúva, Mécia de Sena, para assegurar a perenidade de Sena e divulgação de todo o espólio que Sena nos legou.

Mas é também fundamental proporcionar a esse legado um tratamento condigno, permitindo a difusão e o estudo de toda a obra de Sena em círculos cada vez mais alargados.

Esta iniciativa da Fundação Saramago será certamente uma das muitas e necessárias iniciativas que permitirão recuperar gradualmente a obra de Sena, de modo a que todos a púnhamos no lugar superior que lhe cabe na Literatura de Língua Portuguesa e na memória de cada um de nós.

Associei-me, também por isso, a esta iniciativa da Fundação agradecendo aos seus responsáveis esta justa homenagem a Jorge de Sena.

Porque, como Mécia de Sena me referiu há poucos dias, «a justiça também se agradece!»

«A língua é mais forte do que o sangue», escreveu Franz Rosenzweig, e com isso afirmou a essencialidade de uma pertença mesmo quando nos recusaram ou recusamos.

Jorge de Sena é um dos escritores, um dos pensadores, como Eduardo Lourenço ou José Saramago, é um dos portugueses do século XX, que de forma mais absoluta e indómita exprime essa contradição, a de se nascer e ser-se português durante grande parte desse século XX. A contradição entre ser-se desta pátria que é a língua portuguesa e ter-se, em consciência, de recusar a pátria, a contradição entre ser-se no seu seio nascido, ser-se por ela assim escolhido, e felizmente escolhido, como se descobre ao descobrir a liberdade e se construir a identidade em português, à medida que se aprende a ser e a sentir, a falar, a ler e a escrever nesta nossa pátria que é, repito e abuso, a língua portuguesa, e descobrir-se também, inescapavelmente, e à medida que se vai sendo e crescendo, que, para se ser tão livre, íntegro e desassombrado, como esta língua é e a alguns faz, a pátria portuguesa se tem de tornar um lugar de recusa, o lugar de exílio, primeiro interior e depois exterior, no que para Sena desde cedo se tornou e continuou sendo mesmo quando já não era admissível e era totalmente injusto que o fosse ainda.

Tudo farei por isso, para que lhe restituamos também a ele a pátria de que foi privado, para que reparemos essa injustiça que fizemos ao Jorge de Sena e ainda a que do mesmo passo fizemos e fazemos a todos os Portugueses que do Sena foram e são privados.

Assim, proponho-me a fazer o que estiver ao meu alcance, tudo tentarei e farei mas não posso garantir ter êxito, para trazer Jorge de Sena de regresso a Portugal, trazê-lo a ele e ao seu espólio e o que mais a Senhora D.ª Mécia de Sena nos quiser entregar e queira confiar à Biblioteca Nacional de Portugal, para que aí se preserve, se analise, se comente e digitalize e divulgue.

Concluo, manifestando o meu profundo agradecimento a Jorge de Sena, pela sua obra e por ter sido quem foi.