Ministério da Cultura

 CERIMÓNIA DE HOMENAGEM A ANTÓNIO CARLOS MANSO PINHEIRO 

23-05-2007 

Discurso do Secretário de Estado da Cultura, Mário António Pinto Vieira de Carvalho, na Cerimónia de homenagem a António Carlos Manso Pinheiro, durante a qual se fez a entrega póstuma da Medalha de Mérito Cultural (por ocasião da abertura da Feira do Livro, 23 de Maio de 2007)

Não cheguei a escrever o texto para o livro que hoje é lançado em memória de António Carlos Manso Pinheiro.

Queria escrever um texto que não fosse banal. Um texto que fizesse justiça à dimensão humana da pessoa, ao valor da sua obra, ao alcance da sua acção cívica e política, à amizade e camaradagem que nos ligavam.

Precisava de tempo para me concentrar. Tempo para pensar. Tempo para rememorar quase quatro décadas de diálogo, de cumplicidades várias, de mútuas interpelações. Não o achei.

Resta-me associar-me sentidamente como amigo a esta homenagem.

Mas cumpre-me também, por força do exercício das minhas funções, abstrair da amizade e do meu conhecimento pessoais, para salientar, nesta ocasião, as qualidades do Editor, o contributo inestimável que deu para a transformação do panorama editorial em Portugal, o enriquecimento que trouxe para a cultura portuguesa, o sentido de responsabilidade e os riscos que corria ao passar das convicções aos actos, não recuando perante grandes desafios, editando, editando, editando, numa avidez só comparável àquela que sempre lhe conheci como leitor dir-se-ia compulsivo.

Em nome do Ministério da Cultura, em nome do Governo, curvo-me perante a sua memória, fazendo-me eco da gratidão que todos quantos amam os livros não podem deixar de sentir pelo seu extraordinário legado.

O Plano Nacional de Leitura está em marcha. Vamos vencer a iliteracia. Vamos trazer mais crianças, mais jovens, mais adultos, mais idosos para a leitura. Precisamos de mais leitura e de mais leitores para crescermos como sociedade, para nos abrirmos ao mundo, para cimentarmos a nossa identidade e, ao mesmo tempo, aprofundarmos o diálogo intercultural.

Ler e dar a ler, expandindo a esfera pública, miscigenando-a, tornando-a socialmente inclusiva, num processo dinâmico, em permanente renovação — eis o que só se pode fazer com livros, e para tanto, são precisos editores.

A homenagem a António Carlos Manso Pinheiro é, afinal, uma homenagem ao Editor, aos Editores, a todos os profissionais que, como ele, encaram a sua actividade com sentido de missão – mais motivados pelo livro e pela leitura como um fim em si do que pelos ganhos materiais que daí lhes advenham.

Este é um sector onde poucos investem para se enriquecer e muitos investem para nos enriquecer, a nós, leitores. A grande maioria dos editores tem isso de comum com o António Manso Pinheiro: o êxito económico consiste, para eles, em ganhar o suficiente para continuar a publicar.

Queremos, sem dúvida, um mercado do livro próspero, que reflicta o desenvolvimento da economia e, por sua vez, contribua para a dinamizar. O Plano Nacional de Leitura também tem isso em vista. Promover hábitos de leitura é promover o aumento da procura de livros.

Mas, ao mesmo tempo, precisamos absolutamente desse extenso núcleo de editores que se reconhece numa deontologia própria, e para quem o livro – enquanto objecto da sua actividade empresarial – não é apenas uma mercadoria, ou não é fungível como mercadoria. Hoje produzo livros, amanhã sabonetes – quem assim pensa pode até ser um empresário de sucesso, mas não é editor. Falta-lhe a entrega, que faz da actividade editorial uma razão de ser, o fundamento da realização pessoal.

É a essa entrega, própria dos Editores, que também se presta hoje aqui homenagem.