Discurso da Ministra da Cultura Maria Isabel da Silva Pires de Lima na cerimónia comemorativa dos 717 anos da Universidade de Coimbra.
Exmo. Senhor Reitor da Universidade de Coimbra,
Exmo. Senhor Delegado Regional de Cultura,
Demais Autoridades Presentes,
Ilustres Convidados,
Minhas Senhoras e Meus Senhores:
Vejo-me no interior de uma constelação nova e singular.
A semana cultural da Universidade de Coimbra cumpre, neste ano de 2007, a IX edição e despediu-se, definitivamente, de uma noção convencional de «extensão cultural» ou de uma concepção auto-limitadora do que seja a dimensão cultural da Universidade.
O programa que hoje começa, com as suas mais de 100 iniciativas, é por certo uma expressão excelente do trabalho realizado pelas Faculdades, Centros de Investigação, Arquivo e Biblioteca Geral, Secções Culturais e Desportivas da A.A.C., Organismos Autónomos.
O programa que hoje começa não quis circunscrever-se, a exemplo do que aconteceu em 2006, às fronteiras da Universidade de Coimbra e alargou-se à cidade e à região.
Mas o programa que hoje começa não é, por isso, nem um conjunto mais ou menos conexo de iniciativas nem um simples evento regional.
Na linha de uma feliz preocupação recente, a Semana Cultural 2007, sob a coordenação do Sr. Pró-Reitor para a Cultura, Prof. Doutor João Gouveia Monteiro, que agora cessou funções e a quem felicito pelo trabalho realizado, inscreveu a chamada à participação no tema «O Ambiente e os Direitos Humanos no Ano Internacional do Sol». São questões chave da agenda contemporânea, cuja importância estritamente política mergulha na mais profunda exigência civilizacional, instando-nos ambas a uma resposta inequívoca onde nos jogamos como presente mas sobretudo como futuro.
A existência desta preocupação temática transforma necessária e felizmente, o conjunto de iniciativas propostas numa espécie de reflexão multidisciplinar ou, melhor, na declinação polifónica do que significa, hoje, estar vivo.
Mas é também por isto que não estamos perante um evento local ou regional: é em fidelidade à própria noção de Universidade, que a possível articulação de todos estas iniciativas acaba por construir um ponto de vista crítico, analítico, histórico e prospectivo sobre o mundo contemporâneo a partir do ambiente e dos direitos humanos.
Ao querer afirmar-se implícita e explicitamente como lugar de instância crítica e de produção de uma auto-consciência historicamente comprometida com os valores da liberdade, da justiça e da solidariedade, a Universidade acolhe, no vivo da criação, o ímpeto criativo das artes e das ciências. A existência de uma jovem licenciatura de Estudos Artísticos e a recente inauguração do Museu da Ciência, lidas em conjunto, significam que a importância da imaginação criativa como elemento de transformação da imagem que a sociedade constrói de si mesma é hoje um aspecto decisivo da identidade cultural das Universidades.
Saliento que a criatividade tornou-se uma driving force do crescimento económico e que a nova “idade Criativa” está neste momento a sobrepor-se a uma Idade Industrial. Actualmente, em vez de uma mudança que consiste na aplicação do conhecimento à técnica (Revolução Industrial) ou na aplicação do conhecimento ao trabalho (Revolução da Produtividade) verifica-se uma aplicação do conhecimento ao conhecimento (Revolução de Gestão). A referida transformação baseia-se em inteligência humana, conhecimento e criatividade, e recorre a novas matérias-primas, como a Informação, Capital Criativo e Capital Intelectual Humano. Estes são hoje, não tenhamos dúvidas, factores absolutamente necessários ao crescimento social e económico, quer dos países, quer das cidades, na era da concorrência global! E as Universidades têm aqui um novo e estimulante desafio!
Por isso, a resposta do Ministério da Cultura à solicitação de que fosse este ano parceiro principal da Semana Cultural só poderia ser afirmativa: sim, pela qualidade intrínseca do evento;
sim, pelo que o programa significa da reconfiguração de antigas fronteiras disciplinares, com o reconhecimento de novas relações entre ciências e artes, bem como da necessária revalorização da educação estética;
sim, ainda, pela nossa própria noção de cultura, esse plano onde se entrelaçam o passado, o presente e o futuro, o instrumental e o gratuito, a utopia e a história, a excepção e a regra, essa região onde nos descobrimos como «eu» e como «outros», esse «astro» de que fala António Ramos Rosa num dos poemas inéditos oferecidos à Semana Cultural, «perdido no firmamento», «entre outros / evidente e anónimo /…tão vivo como os outros / com o murmúrio de uma nascente» .
Como síntese da temática, a IX Semana Cultural quis ter o título colhido no belo verso de António Ramos Rosa : «estou vivo e escrevo Sol». E, ao mesmo tempo, que entrega o prémio Bluepharma, concede o Prémio Universidade de Coimbra ao matemático Marcelo Viana, poveiro carioca, considerado um dos maiores especialistas mundiais no campo dos Sistemas Dinâmicos, que numa entrevista recente sublinhava a correlação entre o abstracto e o concreto, lembrava a beleza do Binómio de Newton, preferia a beleza da Vénus de Milo e referia a «tristeza» que é «fechar um problema».
Ou, para além ou para aquém de todas as estrelas, de todos os astros, «o murmúrio de uma nascente». Estar à escuta é a condição da nossa historicidade: afasta o pensamento da ideologia e impõe a cultura no centro da agenda política.
A centralidade da Cultura, nas suas mais diversas vertentes, é e será cada vez mais uma realidade reconhecida no seio da União Europeia. A nomeação recente de um Comissário Europeu para o Multilinguismo e a publicação de um relevante estudo sobre o impacto da Cultura na Economia da União - impacto esse que atinge 2,6 por cento do PIB, ou seja, é superior a sectores tradicionais como as indústrias têxtil e automóvel – são sinais claros, translúcidos, do lugar que a Cultura já ocupa no núcleo duro das políticas europeias para a concretização da Estratégia de Lisboa.
Termino retomando a ideia de estarmos, efectivamente, perante uma constelação singular! Ambiente e Direitos Humanos, o Sol, as Ciências e as Artes, a Poesia e a Matemática! À Universidade de Coimbra dirijo, pois, o meu mais vivo e sincero aplauso! Pela ousadia, pela clarividência, pela modernidade implícitas na capacidade de multiplicar a Sabedoria em mil estrelas de Luz que nos apontam os caminhos do futuro!