Ministério da Cultura

 SESSÃO DE ABERTURA DO 17º ENCONTRO DE LITERATURA PARA CRIANÇAS 

08-11-2006 

Começo por saudar a Fundação Calouste Gulbenkian pelo seu 50º aniversário, data de importância maior para todos, beneficiários da sua rica e diversificada actividade.

Sublinho, hoje, neste Encontro, o papel ímpar e qualificado que a Fundação, ao longo de quase 30 anos, tem desempenhado na reflexão em torno da literatura para a infância e juventude, na promoção da leitura e na emergência de novos autores.

Daniel Pennac, no seu livro Como um Romance , diz-nos que "“há verbos que não suportam o imperativo. Não se pode dizer: ama, (...), lê”", sublinhando, assim, que a leitura e o amor são, de entre outras coisas, exercícios de liberdade e de desejo. Não se lê por decreto nem por obrigação.

O que aqui hoje nos junta apoia-se em três pilares: a Literatura, as crianças e a memória (também como imaginação).

A formação de um leitor é uma viagem longa, contínua e, por vezes, complexa. A Infância é o lugar por excelência onde essa caminhada se deve iniciar, o momento onde porventura é mais promissor e por certo mais desafiante começá-la. Matilde Rosa Araújo lembra que «há poesias de Fernando Pessoa e de Ruy Belo que não são para crianças mas têm travos ou traves, em que as crianças se sentem bem. É como a música clássica»."«Porque, acrescenta a escritora, as crianças são, sempre, sensíveis ao belo. E esse é um maravilhoso trunfo com que podemos e devemos contar no arranque da referida caminhada.»

O tema que preside a este Encontro coloca-nos perante velhos mas eternamente novos patamares de discussão, sobretudo se atentarmos no facto de que a criança de hoje se confronta com um mundo onde o ritmo de inovação e os ruídos que produz tendem a alienar a memória poética e a fazer da leitura e da literatura, sobretudo, um esforço quase marginal.

Na realidade, sabemos que a Literatura para a Infância deve ser pautada por três características específicas. São elas a Simplicidade (que não a Simplificação), a Ousadia Poética e a Comunicação Adequada.

Estes princípios certamente que se aplicam sempre que pretendemos transpor para o universo da infância um determinado texto literário produzido não especificamente para essa esfera de leitores.

Na verdade, e retomando as palavras de Matilde Rosa Araújo, a beleza inerente à criação literária é razão per si para provocar emoções nos mais jovens. E noto que quando falamos de Arte, sob qualquer forma ou expressão, falamos, inevitavelmente, de Afectos, de Emoções. A Literatura sente-se. E só acedendo a essa experiência de domínio emocional é possível compreendê-la e racionalizá-la.

Creio que a adaptação para a infância de um texto literário é um exercício criativo desencadeador de uma multiplicação dos níveis de leitura e porventura da utilização de uma diversidade de suportes. É transformar um baú recheado em várias caixinhas com tesouros lá dentro. E depois levar cada criança a descobrir uma chave. A sua chave. Que a acompanhará pela vida fora, dando-lhe apetrechos para ir construindo sempre mais chaves e novas chaves.

A promoção dos hábitos de Leitura entre a população portuguesa, em particular entre os mais novos, é uma prioridade absoluta deste governo. Por esta razão, foi lançado o Plano Nacional de Leitura, iniciativa interministerial já em curso, cujo escopo é transversal a toda a sociedade, extravasando os contextos convencionais de leitura. Recordo que a participação do MC no PNL se faz através do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB). E gostava também de referir o projecto de Museu “O Mar da Língua”, a instalar em Belém, que, estou certa, em muito contribuirá para sensibilizar os mais jovens relativamente ao universo da Língua e da Leitura.

O PNL é um projecto à escala nacional, assumidamente ambicioso, que visa a promoção dos níveis de literacia dos portugueses e, por consequência, a defesa de valores tão altos como a paz social, a qualificação, o desenvolvimento da nossa sociedade. Investir na Leitura é investir no Futuro. E sei o quanto estas palavras fazem sentido para todos quantos me ouvem nesta sala.
Retomando o tema deste Encontro, cuja oportunidade quero saudar, a Literatura contada às crianças coloca-nos perante algumas questões desafiadoras:
Será que a escrita dirigida aos adultos confronta inevitavelmente a criança com uma realidade estranha, alheia ao seu mundo e ao seu sentir?

Ou será que facilita a construção da sua identidade, da sua apreensão do real? - Como se consegue adaptar sem infantilizar? E sem cair na tentação oposta, a de tratar a criança como um pequeno adulto, sonegando-lhe o direito ao fantástico, ao faz de conta, ao maravilhoso?

Será que a adaptação para a infância de um determinado texto literário implica a reformulação dos seus recursos estilísticos?
Que critérios devem ser seguidos? Como se decide quais as obras passíveis de adaptação? Pela sua temática? Pela sua actualidade? Pela sua eternidade? Pela sua linguagem?

Como oferecer os clássicos à infância?

Como decidir e harmonizar o texto com a ilustração, elemento fundamental – e enriquecedor - nas obras dirigidas à infância?

Estou convicta que ao longo destes três dias de trabalho, e com o prestigiante contributo do painel de especialistas previsto, muitas respostas serão dadas e muitos caminhos serão encontrados, tomando como ponto de partida estes e outros temas de reflexão. Retomo Pennac, porque esse é o grande desafio que enfrentamos: saber como conciliar obrigação ou pelo menos necessidade com prazer de ler, conquistando as crianças para o exercício de algo a que não me canso de chamar “o privilégio da leitura”. Bom Trabalho e Bons Êxitos!