Ministério da Cultura

 CERIMÓNIA DE ATRIBUIÇÃO DOS PRÉMIO STUART CARVALHAIS DE DESENHO DE IMPRENSA 

22-06-2006 

Discurso do Secretário de Estado da Cultura, Mário António Pinto Vieira de Carvalho, na cerimónia de atribuição dos Prémio Stuart Carvalhais de Desenho de Imprensa (Casa da Imprensa / El Corte Inglês, Hotel Ritz, 22 de Junho de 2006)

Minhas Senhoras e meus senhores

A caricatura, o desenho de imprensa ou o cartoon, como queiram chamar-lhe tem em Stuart Carvalhais um dos seus grandes nomes, e não só a nível nacional. Stuart Carvalhais seria sempre um grande ilustrador e um grande caricaturista em qualquer parte do mundo. Para além disso, como sabemos foi ainda um participante activo no movimento modernista das artes plásticas, ao lado de Almada e de Santa Rita, tendo-se distinguido como pintor, cenógrafo, figurinista, abrindo-se também à nova arte cinematográfica, como actor, decorador, cenógrafo, gráfico e até realizador. Enfim uma personagem multifacetada, que marcou a esfera pública em Portugal sobretudo naqueles agitados anos vinte em que se vivia em liberdade de imprensa em Portugal, antes da ditadura – antes da drástica refeudalização da esfera pública que se seguiu nos 40 anos seguintes – e onde portanto um génio do desenho como Stuart podia dar livre expansão à sua criatividade na crítica e na sátira.

Por isso também um prémio como este, do desenho de imprensa, da caricatura publicada em periódicos, não poderia ser dado, ou não seria facilmente tolerado, nem muito menos sancionado pelo Poder em tempos de ditadura. A crítica e a sátira são inerentes à esfera pública das sociedades democráticas e a sua expressão através do desenho é hoje em dia considerada indispensável em todos os principais órgãos de imprensa.

O traço de um grande desenhador é mais eloquente do que as palavras, ou confere às palavras que, por vezes, o acompanham uma eloquência, uma acutilância que estas sozinhas nunca poderiam atingir.

Mas há ainda outras manifestações igualmente importantes do desenho de imprensa que têm ganho terreno nos órgão de informação, como o comentário gráfico de uma coluna de opinião, a ilustração de reportagens onde fotógrafos não são consentidos (como é o caso de investigações-crime, julgamentos, etc).

E, é claro, há a banda desenhada, que tanto se tem desenvolvido ultimamente entre nós e de que Stuart Carvalhais foi também um genial precursor.

Gostaria, aliás, de aproveitar esta ocasião para referir, a propósito, a animação cinematográfica, que atravessa um período de excelência em Portugal pois é uma área aparentada com a banda desenhada e que não seria possível sem uma investigação continuada sobre o desenho. (Lembro o prémio concedido da Regina Pessoa no Festival de Cinema de Animação de Annecy e vamos ter com certeza aqui hoje mais um exemplo dessa excelência com a curta-metragem de animação sobre Stuart realizada por Zepe).

Permitam-me, pois que felicite a Casa da Imprensa pela criação do Prémio Stuart Carvalhais, que consagra pela primeira vez uma figura que revolucionou o forte laço de comunicação que a ilustração representa nos media portugueses, sejam órgãos dedicados à notícia em geral sejam especializados na cultura ou no desporto.

Permitam-me que felicite El Corte Inglês por se ter associado como mecenas a este Prémio – cada vez mais as sociedades democráticas contemporâneas deste espírito empresarial avançado, que reconhece a importância estratégia do mecenato cultural, pois,

  • sem um ambiente culturalmente rico, onde os criadores sejam estimulados na sua actividade, reconhecidos e premiados,
  • sem uma dinâmica que favoreça a descoberta, a criatividade, a inovação na área da cultura,
  • sem o estímulo ao pensamento, ao conhecimento, e à imaginação que as artes podem proporcionar e que só elas podem proporcionar de uma determinada e insubstituível maneira, não há receitas puramente económicas que nos valham.

Nada é puro no mundo actual. As coisas estão todas intrincadas umas nas outras. E a cultura precisa tanto da economia, como a economia precisa da cultura. Ter consciência disto é que faz a diferença.

Finalmente os meus parabéns aos premiados, e o meu apreço pelo trabalho da editora Assírio e Alvim e dos autores das obras associadas a este prémio, onde já se conta uma Fotobiografia de Bordalo Pinheiro e agora prossegue com um livro sobre Stuart Carvalhais.