Discurso da Ministra da Cultura Maria Isabel da Silva Pires de Lima na cerimónia de inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Brasil
Senhor Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin
Senhor Ministro da Cultura, Gilberto Gil
Senhor Presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça
Senhor Presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho
Senhora Lily Roberto Marinho
Amigos brasileiros e portugueses
A Língua Portuguesa é a nossa Alma. Com ela sentimos, com ela pensamos, com ela criamos. A Língua é o solo fértil, a terra mãe, a matriz de todas as emoções, de toda a sabedoria e criatividade. Razão e coração.
Na realidade, a Língua Portuguesa irmana os povos de oito países geograficamente distantes: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor e Portugal. Oito países, quatro continentes, mais de duzentos milhões de falantes. Assim é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
À semelhança do que sucede com os irmãos de sangue, sabemos que cada um tem o seu jeito de ser, e que a diferença das nossas personalidades nos fortalece e dignifica, enquanto grande família. No entanto, sabemos também que as nossas cumplicidades, feitas de segredos partilhados, são muito mais fortes do que qualquer traço distintivo do nosso carácter individual.
Prosseguindo na metáfora: a nossa fraternidade revela-se e corporiza-se em cada palavra que pronunciamos e sabemos entender, em cada significado que expressamos e podemos percepcionar. E a nossa afinidade estreita-se em cada regra partilhada, na sintaxe e na morfologia, em cada vocábulo trocado, na felicidade e na tristeza. Porque a Língua não é só o domínio do Sentido. Ela é, primordialmente, o lugar do Sentimento, por isso a chamamos de materna.
Desta percepção, a meu ver tão certeira, fala-nos Eugénio de Andrade, nome grande da poesia portuguesa recentemente desaparecido. Num belíssimo poema que dedica à Língua, à Nossa Língua, diz-nos que ela é a «materna casa da alegria e da mágoa, dança do sol e do sal».
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Em nome do Primeiro-Ministro de Portugal, José Sócrates, que aqui represento, felicito o Brasil por este projecto admirável dedicado a essa «materna casa» que todos nós, aqui presentes, temos o privilégio de habitar.
Saúdo muito particularmente a Fundação Roberto Marinho e o Governo de S. Paulo pela ousadia, pela determinação, e pela originalidade. O Museu da Língua Portuguesa - Estação da Luz constitui uma iniciativa pioneira à escala mundial, a vários níveis: pelo objecto de que se ocupa, pela excepcional natureza do seu acervo e pela democratização que introduz no plano da autoconsciência linguística, exercício tradicionalmente circunscrito às elites intelectuais.
Essa reflexão em torno do nosso próprio idioma, da sua história e do seu funcionamento é, neste projecto, engenhosamente estimulada a partir de toda uma diversidade de recursos tecnológicos hoje disponíveis, que asseguram ao conjunto modernização, interactividade e uma dimensão dinâmica absolutamente essencial para retratar a natureza da matéria linguística. O Português, como Língua viva, é acrescentado e reinventado por cada um de nós, a cada dia que passa.
Por sua vez, a componente multimédia abre caminho à constituição de uma cada vez mais eficaz rede de comunicação entre toda a comunidade de Língua Portuguesa. E não tenhamos dúvidas que ao aprofundar e consolidar a noção de partilha de um idioma, os povos se fortalecem. E a Língua, a nossa Língua, também.
Mas este Museu de características únicas destaca-se igualmente pela estratégica e astuta localização, num lugar do quotidiano de S. Paulo, ponto de chegada e de partida, como a própria Língua. E ainda na forma feliz e bem sucedida, como sector público e privado se souberam articular na prossecução de um objectivo partilhado, e em torno dele mobilizar a sociedade civil.
Por todas estas razões – e tantas outras que poderiam ainda ser enumeradas - o governo de Portugal permanecerá muito atento a este projecto, como de resto sucedeu durante toda a sua génese, na perspectiva duma mais profunda comunhão futura. E entendo que de outra forma não poderia ser.... Porque uma Língua, a nossa Língua, é tudo quanto temos para sermos quem somos. É a forma e a substância. O Ser e o Estar.
Ou, nas palavras poéticas de Vergílio Ferreira, com as quais me despeço: «Uma Língua é o lugar de onde se vê o mundo, e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir».