Exmo. Sr. Dr. Pedro Agostinho
Exmo. Sr. Prof. Dr. Paulo Borges
Exmo. Sr. Dr. Braz Teixeira
Exmo. Sr. Dr. Batista Lopes
Exmo. Sr. Prof. Dr. Miguel Real
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Celebrar Agostinho da Silva é evocar o Homem, o cidadão, o pedagogo, o lutador: o homem livre e o humanista que ele foi.
Espírito rebelde e intemerato, clarividente e carismático, inventivo e imaginativo, toda a sua vida é uma lição de coragem, de inteligência e de determinação.
Viajante, por imposição da mesquinhez de quem convivia mal com espíritos livres, viajante, também, pela curiosidade insaciável (e profética?) em conhecer o outro, pela cultura vasta, sem fronteiras, sem tabús, sem temores obscurantistas, residiu em diversos países - numa fase em que isso era incomum - nos quais e dos quais recebeu e deu o seu saber multímoda, tolerante e humilde, sempre.
«Licenciado em Filologia Clássica, mas também em algo de mais importante (..) em liberdade», segundo as suas próprias palavras, insurge-se, indignado, contra o encerramento da Faculdade de Letras do Porto (à qual presidia Leonardo Coimbra), precisamente no ano (1928) em que obtém o seu diploma com a classificação de 20 valores.
Bolseiro em Paris (1932), é em Aveiro que será colocado como professor do ensino secundário, do qual virá a ser demitido, por se recusar a assinar uma declaração, obrigatória à época, em como não era membro de qualquer sociedade secreta.
Em Madrid, passará o ano de 36 e, de novo em Portugal, dá à estampa os primeiros cadernos Iniciação, a que se seguem os textos pertencentes às séries Antologia e Volta ao Mundo.
No Brasil fixará residência entre 1944 e 1969, tendo desempenhado diversas funções em várias instituições de prestígio, nas quais deixará vincada a sua inigualável e inesquecível presença, a saber: O Instituto de Biologia Oswaldo Cruz, as Universidade de Paraíba, de Brasília e da Baía – onde funda o Centro de Estudos Africanos e Orientais - só para referir algumas. Como Assessor do Presidente Jânio Quadros, desloca-se a Timor, Macau e Japão, onde funda um Centro de Estudos Luso-Brasileiros.
Passou os últimos 25 anos de vida em Portugal, tornando-se numa das mais carismáticas e populares figuras da vida cultural portuguesa. Nas suas popularíssimas Conversas Vadias, proporcionou-nos deliciosos momentos de real vadiagem pelos temas mais diversos da actualidade, do passado e do futuro do país e do mundo, questionando-nos a todo o instante sobre a nossa identidade e o nosso destino como nação.
Estamos, pois, perante uma personalidade que caminhou sempre à frente do seu tempo, um cidadão que anuncia, aposta e estimula uma das grandes questões da actualidade: «o diálogo Ocidente-Oriente e Norte-Sul».
Esta comemoração assume, em 2006, um significado ímpar e uma relevância acrescida, uma vez que, ao comemorarmos este ano o 10º Aniversário da CPLP (oficialmente constituída em Cimeira de Chefes de Estado e de Governo realizada em Lisboa em Julho de 1996), se prevê celebrar, pela primeira vez, o Dia da Cultura Lusófona, no próximo dia 5 de Maio.
Celebrar Agostinho da Silva é, pois, celebrar a diversidade cultural, questão tão actual quanto complexa, a qual tem suscitado em todo o mundo amplos e calorosos debates em torno da especificidade dos bens e dos serviços culturais e da preservação e divulgação das manifestações culturais espalhadas pelo mundo.
O tema é de tal modo imperativo - e todos os dias temos disso provas evidentes - que tem sido objecto de exaustivo e profundo trabalho no seio de diversos organismos internacionais, nomeadamente na UNESCO, que, na sua última Conferência Geral (Outubro 2005) aprovou a «Convenção para a Protecção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais».
Celebrar Agostinho da Silva inscreve-se, igualmente, na celebração do diálogo intercultural, do intercâmbio de culturas e saberes, da construção de pontes e de caminhos partilhados entre os vários quadrantes do mundo - matérias congregadoras e matriciais da Conferência dos Ministros da Cultura do Conselho da Europa, realizada em Faro, em Outubro passado, subordinada ao tema: «Diálogo Intercultural: Os Caminhos do Futuro» (que assinalou, também, o encerramento das comemorações do 50º aniversário da Convenção Cultural Europeia) e tema não só da Presidência Portuguesa da União Europeia (no 2º semestre de 2007) como do ano de 2008: Ano do Diálogo Intercultural.
O Ministério da Cultura, com acrescido gosto e particular carinho, disponibilizou-se, desde a primeira hora, para colaborar com a Associação Agostinho da Silva na celebração do 1º centenário do nascimento do grande pensador e respeitado cidadão, comemoração, esta, aliás consagrada nas Conclusões da VI Reunião de Ministros da Cultura de Portugal e do Brasil (Rio de Janeiro, 2003).
O Prof. Dr. Paulo Borges, na sua qualidade de Presidente desta Associação, foi designado como interlocutor, pela parte portuguesa, para a presente celebração, tendo sido, também, criada uma Comissão Coordenadora e uma Comissão de Honra à qual tenho o maior prazer de presidir.
Esperamos contar para este ano de celebração com a colaboração dos demais países lusófonos, para cujas culturas e diálogo intercultural Agostinho da Silva tanto e tão condignamente contribuiu.
Não quero terminar esta intervenção sem duas referências indispensáveis:
- A 1ª , uma alusão ao carácter ímpar e poliédrico da obra deste homem do mundo, perpetuado pelo lastro pedagógico que atravessa gerações e gerações de leitores e à atenção cuidada e investigação qualificada que dedicou à vida e obra de figuras tão diversas como Francisco de Assis, Pasteur, Leopardi, Miguel Ângelo, entre vários outros;
- A 2ª, a lembrança do seu gosto pela provocação sintetizado nestas palavras tão utópicas quanto lúcidas: «Uma das desgraças de Portugal é que foi sempre governado pelo vedor da Fazenda, quando este deveria ser o simples caixa de uma empresa a dirigir pelo Ministério da Cultura».
Com todo o respeito e estima que tenho pelo Professor Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças e meu colega na Universidade do Porto, trouxe aqui estas palavras pelo que também elas contemplam de percepção antecipativa de por onde passa o desenvolvimento sustentado de uma nação.
Também por este seu lado visionário Agostinho da Silva foi grande.