Ministério da Cultura

 INAUGURAÇÃO DO TEATRO MUNICIPAL DE ALMADA 

17-07-2005 

Discurso do Secretário de Estado da Cultura, Mário António Pinto Vieira de Carvalho, por ocasião da inauguração do Teatro Municipal de Almada a 17 de Julho de 2005

Exmo. Senhor Presidente da República
Exma. Senhora Presidente da Câmara Municipal de Almada
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal
Exmo. Senhor Governador Civil
Exmo. Senhor Director da Companhia de Teatro de Almada
Excelências
Minhas Senhoras e meus Senhores:

É um privilégio e uma honra estar hoje convosco na cidade de Almada para inaugurar o novo Teatro Municipal. Da autoria dos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, com Gonçalo Afonso Dias, o novo teatro, o «Teatro Azul», como os arquitectos o baptizaram, passa a ser uma referência da Cidade de Almada, integrando-se de forma organizada no espaço urbano.

Mas passa também a ser a referência duma transformação de grande alcance que a Cidade de Almada simboliza – uma transformação que, como já disse noutra ocasião, tem a ver com as relações entre centro e periferia. Esta grande obra – um teatro com uma área de 8.000 m2, duas salas (a maior de ca. 450 lugares), uma sala de ensaios, um café-concerto, uma galeria de exposições, um atelier para crianças, uma livraria, uma esplanada e um apartamento para criadores convidados, representando um investimento de 10,6 milhões de euros, comparticipados em cerca de um milhão de Euros pelo MC – esta grande obra, dizia eu, não teria sido possível se Almada não se tivesse transformado entretanto numa capital do teatro, uma capital do teatro colocada no mapa das capitais do teatro europeias pelo seu festival internacional anual, que reúne companhias das mais prestigiadas vindas de todo o mundo e onde também se mostra o que de melhor e mais avançado se faz no teatro português.

Com a capital aqui ao lado, foi afinal Almada, e não a capital, que lançou esse grande festival de teatro, hoje institucionalizado e de créditos bem firmados, após mais de 20 edições. As relações inverteram-se. Lisboa passou a periferia, e Almada, a centro, a partir do qual emana o festival que se estende também para a outra banda, isto é, para Lisboa...

Esse movimento de internacionalização assenta essencialmente na dinâmica de uma companhia, a Companhia de Teatro de Almada, e do seu director, Joaquim Benite, que aqui criaram e persistentemente mantiveram uma estrutura de produção, uma oficina de trabalho de teatral, digna interlocutora ou parceira das companhias visitantes. Só assim há cultura: quando há intercâmbio de experiências, diálogo de propostas e um público local formado ao longo dos anos, com um critério apurado e que sempre de novo vai abrindo os seus horizontes.

Já antes do 25 de Abril a gente vinha a Almada em busca de experiências culturais que alimentassem o nosso inconformismo, que alimentassem essa vontade que, nós, jovens, tínhamos de mudar o mundo. Aqui havia um público diferente. Ouvir música, assistir a espectáculos irmanava-nos a todos, público e artistas, num acto de resistência cultural e política. Essa é também a lembrança que conservo de Almada, das suas sociedades recreativas e populares, nos anos 60. Mas nesse tempo, há quarenta anos, quem acreditaria que fosse possível em Almada um teatro como este?

Por lo impossible andamos – escreve Gil Vicente num dos solilóquios de D. Duardos, da tragicomédia do mesmo nome, escrita em 1524. É isso, minhas senhoras e meus senhores: andamos pelo impossível, e só assim, só dessa maneira, é que o que parece impossível hoje se transforma em realidade amanhã.

D. Duardos, um príncipe que se despoja dos seus signos de nobreza e se disfarça de ajudante hortelão, de pobre assalariado agrícola, no grau mais baixo da hierarquia social, e disfarça-se assim para quê? Pois para, apenas pelas suas qualidade humanas, conquistar o amor de uma princesa. «Não seria melhor que fosses ao menos escudeiro?» – pergunta-lhe a princesa, uma tarde que o encontra no horto. Ao que ele responde: «Não, senhora, assim me quero, homem de baixas maneiras». E acrescenta (leio no original castelhano): que el estado no es biena-venturado, que el precio está en la persona.

E certo é que o ajudante de hortelão seduz a princesa e que ela se lhe entrega sem conhecer a sua verdadeira identidade. Qual é, porém, afinal, o instrumento de sedução? A linguagem, o diálogo que permite a ambos interlocutores abrirem-se um ao outro – um diálogo, elevado, cheio de espiritualidade, profundo na sua dimensão expressiva, rico de conceitos e argumentos, em suma, um diálogo como só os mais cultos da época podiam manter.

Falando ambos daquela maneira, a princesa e o ajudante de hortelão eram realmente iguais, para além da diferença de estado e de condição. O preço está na pessoa, mas a pessoa é um processo em aberto e não uma chancela que se lhe impõe à nascença. A educação e a cultura transforma-a, fá-la crescer, desenvolver-se, torná-la mais apta para enfrentar o mundo e a vida, para o convívio com os outros e, como já Gil Vicente bem o compreendia, até mesmo para o amor. É a linguagem, isto é, a educação e a cultura, que são verdadeiramente relevantes. Não é a origem ou o nascimento.

Eis a mensagem de Gil Vicente, vai para 500 anos, eis a mensagem que, apesar deste Teatro, apesar do impossível (afinal realizado) que é este teatro, continua a ser hoje de uma gritante actualidade. Num mundo tão desequilibrado como aquele em que vivemos, tão dividido, tão dilacerado por assimetrias regionais e pela exclusão social, tão agredido pela violência, não temos outro remédio senão continuar a andar pelo impossível.

Há que corrigir as assimetrias que nos dividem: assimetrias entre países e entre regiões, assimetrias sociais e económicas, assimetrias culturais. Como o real é relacional, todas essas assimetrias têm de ser combatidas ao mesmo tempo. Mas, embora a cultura não possa tudo, ou possa pouco, porque os recursos financeiros não abundam, é preciso fazer dela cada vez mais um espaço de intervenção que aprofunde a dialéctica entre o nacional e o universal, entre o localismo e o cosmopolitismo, enfim, que transforme a diferença num traço de união, em vez de a deixar cristalizar na exclusão.

E isso vale desde logo para o nosso próprio País, corrigindo as assimetrias entre centro e periferia. Hoje já se faz investigação científica avançada, não só em Lisboa, Porto e Coimbra, mas também em Vila Real, Évora, Aveiro e aqui ao lado, no Monte da Caparica. Pois é preciso que se comece a fazer criação artística avançada também um pouco por todo o País, e tal é o desafio que se coloca à Rede Nacional de Teatros, a partir de agora enriquecida com mais este magnífico elo que é o Teatro de Almada.

O programa da Rede Nacional de Teatros e Cine-Teatros foi lançado pelo ministro da cultura Manuel Maria Carrilho e teve então o generoso apoio de um mecenas que, por outro lado, tanto lucra com um terrível vício dos cidadãos. Refiro-me à Tabaqueira, que então concedeu para esse programa o elevado montante de 7 milhões e quinhentos mil euros, disponibilizado em três tranches, entre 1999 e 2001. Numerosos Teatros e Cine-Teatros históricos têm vindo a ser recuperados no âmbito desse projecto, e foram apoiados nas suas programações de arranque pelo Plano Operacional da Cultura, que entretanto deixou de ser aplicável à Região de Lisboa e Vale do Tejo. É preciso continuar essa obra e por isso tudo faremos para revitalizar esse mecenato.

O novo Teatro Municipal de Almada, porém, já não beneficiou dele. Deve-se totalmente à conjugação de esforços — através de um contrato-programa — do Ministério predecessor do actual Ministério das Obras Públicas e Comunicações no tempo do ministro João Cravinho, do Ministério da Cultura e, sobretudo, importa sublinhá-lo, da Câmara Municipal de Almada e da sua presidente, Maria Emília Neto de Sousa, a cujo dinamismo e dedicação presto homenagem.

Dotado de todas as condições necessárias para as mais modernas exigências teatrais, incluindo um fosso de orquestra para a ópera ou teatro musical, espera-se deste valioso equipamento um contributo diversificado: por um lado, acolhendo eventos que podem circular na rede nacional de Teatros; por outro lado, produzindo ou co-produzindo esses eventos, tanto mais que possui uma Companhia residente de alto nível artístico, a Companhia de Teatro de Almada, e um director com grande experiência profissional, Joaquim Benite. Uma tal sala será não só um convite à intensificação das trocas culturais com o que vem de fora, mas também e sobretudo um convite à produção cultural própria e à mobilização da criatividade local. O conceito programático definido por Joaquim Benite revela a preocupação educativa e de integração social de que a cultura não pode andar desligada.

Dialógico desde a Antiguidade Clássica, o teatro aprofundará sempre a relação privilegiada com a vida da e na comunidade, sendo de todas as artes também a mais sociável, ao pressupor a utilização da palavra como a utilizamos no contexto de convívio diário. Articulando em voz alta, em diálogo, ou nas variantes do monólogo ou do solilóquio o texto das personagens, o teatro rendeu sempre uma comovente homenagem aos seus poetas e autores ao assentar na aprendizagem de cór dos seus textos, conhecendo-os e dando-os a conhecer como mais merecem ser conhecidos. Forma ritual, aristotélica e catártica, ou épica e crítica, o teatro — quer declamado, quer musical (e o mais antigo já era musical) — contribuiu sempre, desde o seu longínquo início, para uma maior consciência de quem somos e para um enriquecimento da nossa convivência como seres sociais. O teatro continua a ser de todas as artes aquela que, relembrando as palavras de Brecht, mais evidentemente festeja «a maior arte de todas: a arte de viver».

Muitos parabéns a Almada e votos dos maiores êxitos com o seu novo Teatro Municipal.